MÃE QUE CHORAVA – Dom Fernando Arêas Rifan

Dois santos admiráveis celebramos nessa semana: Santa Mônica (dia 27) e Santo Agostinho (dia 28), do século IV.

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Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, na Região de Cartago, na África, filho de Patrício, pagão, e Mônica, cristã fervorosa. Segundo narra ele próprio, Agostinho bebeu o amor de Jesus com o leite de sua mãe. Infelizmente, porém, como acontece muitas vezes, a influência do pai fez com que se retardasse o seu batismo, que ele acabou não recebendo na infância nem na juventude. Estudou literatura, filosofia, gramática e retórica, das quais foi professor. Afastou-se dos ensinamentos da mãe e, por causa de más companhias, entregou-se aos vícios. Cometeu maldades, viveu no pecado durante sua juventude, teve uma amante e um filho, e, pior, caiu na heresia gnóstica dos maniqueus, para os quais trabalhou na tradução de livros.

Sua mãe, Santa Mônica, rezava e chorava por ele todos os dias. “Fica tranquila”, disse-lhe certa vez um bispo, “é impossível que pereça um filho de tantas lágrimas!” E foi sua oração e suas lágrimas que conseguiram a volta para Deus desse filho querido transviado.

Agostinho dizia-se um apaixonado pela verdade, que, de tanto buscar, acabou reencontrando na Igreja Católica: “ó beleza, sempre antiga e sempre nova, quão tarde eu te amei!”; “fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós!”: são frases comoventes escritas por ele nas suas célebres “Confissões”, onde relata a sua vida de pecador arrependido. Transferiu-se com sua mãe para Milão, na Itália. Dotado de inteligência admirável, a retórica, da qual era professor, o fez se aproximar de Santo Ambrósio, Bispo de Milão, também mestre nessa disciplina. Levado pela mãe a ouvir os célebres sermões do santo bispo e nutrido com a leitura da Sagrada Escritura e da vida dos santos, Agostinho converteu-se realmente, recebeu o Batismo aos 33 anos e dedicou-se a uma vida de estudos e oração. Ordenado sacerdote e bispo, além de pastor dedicado e zeloso, foi intelectual brilhantíssimo, dos maiores gênios já produzidos em dois mil anos da História da Igreja. Escreveu numerosas obras de filosofia, teologia e espiritualidade, que ainda exercem enorme influência. Foi, por isso, proclamado Doutor da Igreja. De Santo Agostinho, disse o Papa Leão XIII: “É um gênio vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo”. Sua vida demonstra o poder da graça de Deus que vence o pecado e sempre, como Pai, espera a volta do filho pródigo.

Sua mãe, Santa Mônica, é o exemplo da mulher forte, de oração poderosa, que rezou a vida toda pela conversão do seu filho, o que conseguiu de maneira admirável. Exemplo para todas as mães que, mesmo tendo ensinado o bom caminho aos seus filhos, os vêm desviados nas sendas do mal. A oração e as lágrimas de uma mãe são eficazes diante de Deus. E a vida de Santo Agostinho é uma lição para nunca desesperarmos da conversão de ninguém, por mais pecador que seja, e para sempre estarmos sinceramente à procura da verdade e do bem.

Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

 

O CURA D’ARS – Dom Fernando Arêas Rifan

O mês de agosto é o mês dos sacerdotes e das vocações, porque nele se celebra o patrono de todos os padres, São João Maria Vianney, o Cura ou Pároco da cidadezinha francesa de Ars, “modelo sem par, para todos os países, do desempenho do ministério e da santidade do ministro”, no dizer de São João Paulo II, paradigma para a nova evangelização.

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Nascido de uma família de camponeses católicos e muito caridosos, João Maria tinha sete anos quando o Terror da Revolução Francesa reinava em Paris e os padres eram exilados ou mortos. Recebeu a primeira comunhão aos treze anos, durante o segundo Terror, quando a igreja de sua cidade foi fechada e as tropas revolucionárias atravessavam a paróquia. O governo revolucionário estabeleceu a constituição civil do clero e só os padres que faziam esse juramento cismático eram conservados nos cargos. Os outros padres, fiéis à Igreja e que não aceitavam aquele cisma, eram perseguidos, mas atendiam secretamente os fiéis nos paióis das fazendas. Foi a visão desses heróis da fé que fez surgir no jovem Vianney a sua vocação sacerdotal. Candidato, pois, ao heroísmo e à cruz no ministério.

Enfrentou dificuldades no Seminário, donde chegou a ser despedido por incapacidade nos estudos, teve problemas com o serviço militar, conseguiu, porém, aos vinte e nove anos, ser ordenado sacerdote, mas sem permissão para ouvir confissões. Após três anos, foi enviado a uma pequeníssima paróquia, Ars, onde permaneceu durante 42 anos, até o fim da sua vida.

“Há pouco amor de Deus nessa paróquia”, disse-lhe o Vigário Geral ao nomeá-lo, “Vossa Reverendíssima procurará colocá-lo lá”. De fato, Ars, nesse período pós Revolução Francesa, estava esquecida de Deus: pouca frequência às Missas, trabalho contínuo nos domingos, bailes, blasfêmias, etc. O Pe. Vianney começou com penitências e orações próprias. Pregação e catequese contínuas, visitas às famílias e caridade para com os pobres. A Igreja foi se enchendo. Ouvia confissões desde a madrugada até a noite. Peregrinos de toda a França acorriam a Ars, chegando a cem mil por ano. Suas pregações eram assistidas por bispos e cardeais. Seu catecismo era ouvido por grandes pregadores que ali vinham aprender com tanta sabedoria. Morreu aos 74 anos, esgotado pelas penitências e trabalhos apostólicos no ministério sacerdotal. Dizia esse herói da Fé: “É belo morrer depois de ter vivido na cruz”.

Por que razão a Igreja escolheu este santo tão simples para patrono dos padres? Porque sua vida demonstra a nulidade humana e a grandeza do poder de Deus. Para que aprendamos que não são nossos dotes e qualidades humanas que salvam as almas: Deus é que é o protagonista de toda ação pastoral. Por isso também o escolhemos para patrono de nossa União Sacerdotal, transformada pela Santa Sé em Administração Apostólica.

Que todos os fiéis, os grandes interessados, rezem pelos nossos sacerdotes e seminaristas, para que eles imitem a humildade, pobreza, retidão, zelo e fidelidade desse grande herói do ministério sacerdotal, que tanto honrou o sacerdócio paroquial e a Igreja de Cristo.

Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

UM POLÍTICO COERENTE – Dom Fernando Arêas Rifan

A coerência é uma virtude cristã que deve penetrar todas as nossas ações e atitudes. Pensar, viver e agir conforme a nossa fé e nossas convicções cristãs. Caso contrário, seremos hipócritas e daremos um grande contra-testemunho do nosso cristianismo. A consciência é única e unitária, e não dúplice. Não se age como cristão na Igreja e como pagão fora dela.

São_Tomás_MoreMas será já existiu um político cristão verdadeiramente coerente? Sim, ele existiu, e a Igreja o proclamou padroeiro dos Governantes e dos Políticos, exatamente porque soube ser coerente com os princípios morais e cristãos até ao martírio. O belo filme da sua vida, em português, intitula-se “O homem que não vendeu sua alma!”. Trata-se do mártir São Tomás More. Lorde Chanceler do Reino da Inglaterra, por não ter aceitado o divórcio e o cisma do rei Henrique VIII, foi condenado à morte por traição e decapitado em 1535. Preferiu perder o cargo e a vida a trair sua consciência.

 “O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades [terrena e celeste], a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um. Mas não menos erram os que, pelo contrário, opinam poder entregar-se às ocupações terrenas, como se estas fossem inteiramente alheias à vida religiosa, a qual pensam consistir apenas no cumprimento dos atos de culto e de certos deveres morais. Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo” (Gaudium et Spes, 43).

O ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo do País, mas traz um dever moral de coerência aos fiéis leigos, no interior da sua consciência. “Não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida ‘espiritual’, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida ‘secular’, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura” (São João Paulo II, Christif. Laici, 59).

“Reconhecendo muito embora a autonomia da realidade política, deverão se esforçar os cristãos solicitados a entrarem na ação política por encontrar uma coerência entre as suas opções e o Evangelho” (Paulo VI, Octogésima Adveniens, 46). “Também para o cristão é válido que, se ele quiser viver a sua fé numa ação política, concebida como um serviço, não pode, sem se contradizer a si mesmo, aderir a sistemas ideológicos ou políticos que se oponham radicalmente, ou então nos pontos essenciais, à sua mesma fé e à sua concepção do homem…” (idem, 26).

Possa o exemplo de Santo Tomás More ensinar aos governantes e políticos, atuais e futuros, que o homem não pode se separar de Deus, nem a política da moral, e que a consciência não se vende por nenhum preço, mesmo que isto nos custe caro e até a própria vida.

Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

NOSSA SENHORA DO CARMO – Dom Fernando Arêas Rifan

Sábado próximo celebraremos a festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo ou do Carmo, devoção antiquíssima e muito difundida pelo uso do Escapulário em sua honra.

Quase na divisa com o Líbano, o monte Carmelo, com 600 metros de altitude, situa-se na terra de Israel. “Carmo”, em hebraico, significa “vinha” e “El” significa “Senhor”, donde Carmelo significa a vinha do Senhor. Ali se refugiou o profeta Elias, que lá realizou grandes prodígios, e depois o seu sucessor, Eliseu. Eles reuniram no monte Carmelo os seus discípulos e com eles viviam em ermidas. Na pequena nuvem portadora da chuva após a grande seca, Elias viu simbolicamente Maria, a futura mãe do Messias esperado.

Nossa Senhora do Carmo

Assim, Maria foi venerada profeticamente por esses eremitas e, depois da vinda de Cristo, por seus sucessores cristãos, como Nossa Senhora do Monte Carmelo.

No século XII, os muçulmanos conquistaram a Terra Santa e começaram a perseguir os cristãos, entre eles os eremitas do Monte Carmelo, muitos dos quais fugiram para a Europa. No ano 1241, o Barão de Grey da Inglaterra retornava das Cruzadas com os exércitos cristãos, convocados para defender e proteger contra os muçulmanos os peregrinos dos Lugares Santos, e trouxe consigo um grupo de religiosos do Monte Carmelo, doando-lhes uma casa no povoado de Aylesford. Juntou-se a eles um eremita chamado Simão Stock, inglês de família ilustre do condado de Kent. De tal modo se distinguiu na vida religiosa, que os Carmelitas o elegeram como Superior Geral da Ordem, que já se espalhara pela Europa.

No dia 16 de julho de 1251, no seu convento de Cambridge, na Inglaterra, rezava o santo para que Nossa Senhora lhe desse um sinal do seu maternal carinho para com a Ordem do Carmo, por ela tão amada, mas então muito perseguida. A Virgem Santíssima ouviu essas preces fervorosas de São Simão Stock, dando-lhe, como prova do seu carinho e de seu amor por aquela Ordem, o Escapulário marrom, como veste de proteção, fazendo-lhe a célebre e consoladora promessa: “Recebe, meu filho, este Escapulário da tua Ordem, que será o penhor do privilégio que eu alcancei para ti e para todos os filhos do Carmo. Todo aquele que morrer com este Escapulário será preservado do fogo eterno. É, pois, um sinal de salvação, uma defesa nos perigos e um penhor da minha especial proteção”.

O Papa Pio XII, em carta a todos os carmelitas (11/2/1950), escreveu que entre as manifestações da devoção à Santíssima Virgem “devemos colocar em primeiro lugar a devoção do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo que, pela sua simplicidade, ao alcance de todos, e pelos abundantes frutos de santificação, se encontra extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”. Mas faz uma advertência sobre sua eficácia, para que não seja usado como superstição: “O sagrado Escapulário, como veste mariana, é penhor e sinal da proteção de Deus; mas não julgue quem o usar poder conseguir a vida eterna, abandonando-se à indolência e à preguiça espiritual”.

Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

TU ES PETRUS – Dom Fernando Arêas Rifan

Hoje celebramos a festa de São Pedro, apóstolo escolhido por Jesus para ser seu vigário aqui na terra (“vigário”, o que faz as vezes de outro),  seu representante e chefe da sua Igreja. São Pedro era pescador do lago de Genesaré ou Mar da Galiléia, junto com seu irmão, André, e seus amigos João e Tiago. Foi ali que Jesus o chamou: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4, 19-20).

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Pedro se chamava Simão. Jesus lhe mudou o nome, significando sua missão, como é habitual nas Escrituras: “Tu és Simão, filho de João. Tu te chamarás Cefas! (que quer dizer Pedro – pedra)” (Jo 1, 42). Quando Simão fez a profissão de Fé na divindade de Jesus, este lhe disse: “Não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças do inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus (a Igreja): tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 13-19).

Corajoso e com imenso amor pelo Senhor, sentiu também sua fraqueza humana, na ocasião da prisão de Jesus, na casa de Caifás, ao negar três vezes que o conhecia. “Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz com o trigo. Eu, porém, orei por ti, para que tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22, 31-32).  E Pedro, depois de ter chorado seu pecado, foi feito por Jesus o Pastor da sua Igreja.

São Pedro, fraco por ele mesmo, mas forte pela força que lhe deu Jesus, representa bem a Igreja de Cristo. “Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica, edificada por Jesus Cristo sobre a pedra que é Pedro… Cremos que a Igreja, fundada por Cristo e pela qual Ele orou, é indefectivelmente una, na fé, no culto e no vínculo da comunhão hierárquica. Ela é santa, apesar de incluir pecadores no seu seio; pois em si mesma não goza de outra vida senão a vida da graça. Se realmente seus membros se alimentam dessa vida, se santificam; se dela se afastam, contraem pecados e impurezas espirituais, que impedem o brilho e a difusão de sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por esses pecados, tendo o poder de livrar deles a seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo” (Credo do Povo de Deus).

“Enquanto Cristo ‘santo, inocente, imaculado’, não conheceu o pecado, e veio expiar unicamente os pecados do povo, a Igreja, que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação, sem descanso dedica-se à penitência e à renovação. A Igreja continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a paixão e a morte do Senhor, até que ele venha. No poder do Senhor ressuscitado encontra a força para vencer, na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades, internas e exteriores, e para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que no fim dos tempos ele se manifeste na plenitude de sua luz” (Lumen Gentium, 8).

Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

A razão de ser dos contemplativos

vida-contemplativaHá quem compreenda, sob certo ponto, que um homem ou uma mulher seja membro de um Instituto religioso a atuar em trabalhos pastorais, mas não entende como alguém possa levar uma vida plenamente contemplativa: a sós ou em comunidade.

Eis, pois, a necessidade deste artigo: demonstrar a razão de ser dos religiosos (homens e mulheres) contemplativos à Igreja e à humanidade inteira.

Escreve um monge cartuxo – Ordem fundada por S. Bruno, em 1084, na França, para uma vida completamente afastada do mundo –, que: “A missão dos contemplativos é serem no meio do mundo ‘o olhar atento’ da humanidade concentrado em Deus; serem os que permanecem na presença de Deus, por aqueles que jamais se põem na Sua presença; serem os delegados da humanidade esquecida de Deus, para Lhe apresentar o amor, a adoração, as lágrimas e os pecados de todo o mundo; serem, enfim, os que deixam o mundo e as suas vaidades para procurar Deus e dedicar-se totalmente a Ele”.

E continua: “Portanto, não é o egoísmo, o desprezo dos valores humanos nem a covardia o que inspira essa renúncia e procura. Se o contemplativo deixa tudo, é com o intuito e o desejo de entrar plenamente na esfera e na órbita de Deus, amado e procurado sobre todas as coisas” (A vida cartusiana. Ivorá: Mosteiro Nossa Senhora. Medianeira, s/d, p. 3). Ora, é nessa esfera de Deus que o contemplativo eleva ao Senhor as dores e angústias da humanidade inteira rezando por elas, seja de modo voluntário, seja atendendo aos numerosos pedidos de orações que lhe chegam diariamente.

Isso posto, pergunta-se: qual é a espiritualidade básica a mover um eremita (solitário) de Charles de Foucauld (1858-1916)? – É a da vida de Nazaré, tempo no qual o Senhor Jesus passou, dos 12 aos 30 anos, oculto ao mundo.

Todavia, também aprende esse mesmo eremita, a exemplo do Bem-aventurado Foucauld, a não ser um completo isolado, mas, sim, a gritar, com alegria, ao mundo a beleza do Evangelho com o exemplo da própria vida, em primeiro lugar, e com alguns apostolados condizentes com o seu modo de viver: catequese semanal, conversas com pessoas necessitadas, pessoalmente ou via meios eletrônicos, entre outras coisas. Aliás, Foucauld chegava a atender, em seu eremitério, 56 pessoas por dia e não queria que fosse deixada de lado a caridade para com o próximo em momento algum.

Questiona-se, contudo, o que reza um eremita de Charles de Foucauld? – Eis a resposta: às 5h00, reza o Ofício de Leituras (também chamado de Vigílias), depois Laudes (Louvores) e a saudação mariana do Angelus (O Anjo do Senhor anunciou a Maria etc.). Faz, na sequência, a Lectio Divina(Leitura orante da Bíblia) por 1 hora, seguida da Consagração do dia ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, além da Oração do Abandono ou de entrega incondicional nas mãos de Deus.

Logo depois, participa (ou celebra, se for sacerdote) a Santa Missa por volta das 7 horas. Volta a rezar, ainda, às 9h o Ofício de Terça (a vinda do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os apóstolos, At 2,15); às 11h40, o Ofício de Sexta (Início da agonia de Jesus, Mt 27,45), novamente o Angelus e o Rosário. Às 15h reza-se o Ofício de Noa (a morte do Senhor Jesus na Cruz, Mt 27,45) e o Terço da Misericórdia. Novamente, às 17h30, se volta para o Ofício de Vésperas (dá graças a Deus pelo dia e recorda a Ceia do Senhor ocorrida em tempo vespertino, bem como o Juízo Final, arremate da História, Jo 8,12). Novamente se reza o Angelus. À noite, há o Ofício de Completas que, como o próprio nome diz, encerra o dia com a entrega da vida a Deus (cf. Lc 2,29-32), uma Leitura Espiritual (a vida de um santo, um livro de piedade etc.) e o grande silêncio noturno até a manhã seguinte.

Certo é que esse tempo dedicado à oração está entrecortado pelo trabalho manual (manutenção da casa, preparo da alimentação), intelectual (estudos) e pastoral (atender a pessoas que necessitam, especialmente via e-mail). Tudo em louvor a Deus.

Vanderlei de Lima é filósofo e escritor

Fonte: CNBB leste I

O mundo da moda e a ideologia de gênero – Padre Silvio Roberto, MIC

Moda e Ideologia de GêneroNas últimas semanas algumas grandes empresas do mundo da moda lançaram campanhas simultâneas favorecendo a ideologia de gênero. As campanhas visam mostrar que não há roupas para homens ou mulheres, pois não haveria sexo definido, como afirma esta ideologia. O vestir-se seria uma consequência daquilo que se vive. Para entendermos o porquê desta oferta comercial inusitada, temos que acrescentar aqui um outro grupo. Estas campanhas dos chamados capitalistas se somam às tentativas da esquerda em impor nos diversos países tanto esta ideologia quanto o aborto e outros comportamentos contra a vida e a família.

Escrevi este artigo enquanto estava em um trem para Assis. Então convido o leitor a imaginar que estamos, como sociedade, todos dentro de um trem, para chegar em uma estação. O que acontece é que tem alguns grupos que querem definir em qual estação (no caso, estilo de vida) devemos chegar. Estas empresas estão fazendo isso.

Mas a esquerda não é inimiga da burguesia (os ricos empresários)? Como podem estar atuando juntos? São inimigos só na teoria. Na prática, conspiram para o mesmo fim. Para eles a sociedade deve chegar à completa anarquia sexual, pois é um estopim para a derrocada dos valores cristãos (família, casamento, ordem, respeito, etc). O objetivo comum de grandes empresas capitalistas e dos socialistas é o mesmo: forçar comportamentos que irão levar a mudança de valores. O alvo primordial são as crianças, adolescentes e jovens, mais suscetíveis às propagandas e à ideologização.

O que as empresas ganham com isso? Economicamente é um bom negócio investir na chamada contracultura (comportamento sexual sem restrições, ausência de valores) porque toda contestação é, no momento, moda, ou melhor, modismo. E isso vende! Para os socialistas a contestação é ideologia; para os capitalistas é modismo. Aqueles ganham por quebrar a ordem social, passo para a tal revolução profetizada por Marx; estes lucram com o novo mercado que é criado.

As empresas do ramo sabem, no entanto, que o negócio é arriscado porque podem perder os clientes tradicionais. Por isso que seus passos são muito bem calculados. Como o governo do Presidente Obama tem forçado a ideologia de gênero nos Estados Unidos, abriu-se uma janela de oportunidade para uma investida maior. Além disso, os esquerdistas ajudam bastante estas empresas, pois disseminam a ideologia de gênero nas escolas e Universidades. Criam um mercado de consumo.

Na junção dos trilhos modismo-ideologia se vê uma estrutura ferroviária maior: mercado-socialismo. O que eles têm em comum é o materialismo, não se importando com os valores (cristãos) que alçam o ser humano à sua verdadeira dignidade e comportamento correspondente a esta.

A sincronização das campanhas e toda pressão pela imposição da ideologia de gênero principalmente na educação comprovam a logística proposta, mostrando para qual estação estamos sendo encaminhados. Cabe aos cristãos e homens e mulher de boa vontade (e bom senso!) tomarem consciência do que está acontecendo e decidirem se querem embarcar neste trem ou seguirem em outro. A espiritualidade daquele jovem de Assis, tão venerado por nós, pode nos ajudar bastante na decisão.

Padre Silvio Roberto é Diretor da Casa Pró-Vida Mãe Imaculada.